24 de novembro de 2016

Chaleira elétrica Arno Gaúcha

Eu usava uma chaleira elétrica com controle de temperatura da Philips, a HD 4631, comprada no Uruguai, era de fabricação argentina e pensada para quem fosse fazer chimarrão (na caixa, inclusive, havia uma foto de uma cuia de "mate") - isso porque a temperatura ideal para a água do chimarrão é em torno dos 75ºC, como já falei aqui no blog.

Essa HD 4631 é bonita, robusta, faz um trabalho ótimo e tem 3 temperaturas: uns 75ºC, uns 90ºC e 100ºC. Recomendo.

Ela estragou depois de mais de 3 anos de uso, e, como não iria ao Uruguai só pra comprar uma, me dediquei à tarefa mais complicada: encontrar uma chaleira elétrica com controle de temperatura no Brasil (isso e um moedor de grão de café decente são artigos raros por aqui). A única que achei, com tamanho bom e valor comprável, foi uma da Arno, chamada de Gauchá (risos).

Pois sim, com este nome, novamente ele é um produto voltado a quem quer fazer chimarrão - e chá, suponho. No manual diz que ela deveria ter também três temperaturas: 75ºC, 85°C e 100ºC.

No entanto, já achamos algo que não está certo quando vemos a caixa. Na verdade, ela não se chama Gauchá, como está em todo lugar na internet, inclusive nas fotos. Ela vem com o acento em outro lugar e se chama Gaúcha.


Tudo bem, eliminaram o trocadilho. Só que a problemática toda é o controle de temperatura dela. Não é bom. Fiz as medições de temperatura e temos assim: na posição inicial do botão ela aquece a água a 85ºC; na posição do meio não faz nenhuma diferença, porque fica sempre igual à inicial; e na posição final ela ferve.

Então temos um produto que promete três, dá dois e ainda com a temperatura errada. Vejam que a temperatura ultrapassa o ideal para o chimarrão, assim sendo irônico que ela se chame "gaúcha" mesmo.

Não recomendo. Infelizmente o valor dela não é dos mais baixos (custou R$ 148,00 na Ricardo Eletro, lugar com preço mais barato, nos outros sites era mais de R$ 170,00), e não me liguei no defeito das temperaturas até um tempo depois de comprada (não estava fazendo chás com ela, porque ela fica no meu trabalho).

Com o nome Gauchá, como estava nos sites de vendas todos quando comprei
Enfim, dá pra usar, mas naquelas. Esses dias inclusive li um texto sobre como muitas coisas no Brasil são assim: ah, dá pra usar, não é tão bom, mas vamos levando.

Veja o que diz no manual:



21 de novembro de 2016

Provando chás verdes Yamamotoyama

Estou eu aqui com alguns chás Yamamotoyama para escrever a respeito há um tempo, e nunca me arranjava tempo e disposição para provar, anotar, testar, fotografar. Eis que a disposição chega e então vamos à luta.

A Yamamotoyama do Brasil é uma empresa brasileira, com cultivo dos chás no interior de São Paulo, assim como outras marcas das quais já falei aqui (Amaya e Obaatian). Até pouco tempo, era a única que produzia chá verde decente em solo brasileiro, agora a Amaya está se propondo a isso também - embora a maior experiência, técnica e variedade de tipos ainda deixem a Yamamotoyama  bem na frente.


O site deles é bem bom em explicações, você pode visitar lá e saber que "em 1970, foi fundada em Tapiraí, Estado de São Paulo, a empresa Green Tea, predecessora da Yamamotoyama do Brasil", entre outros detalhes da empresa.

Eles me enviaram três tipos de chás para eu provar, logo abaixo falo sobre cada um deles. São todos verdes - eles só produzem chá verde e um chá branco. As instruções de preparo são as mesmas para todos, e são um pouco confusas (pedem para colocar as folhas em uma chaleira - o que pode parecer que é pra fazer cocção e não infusão - e depois despejar "a água fervida", mas não disseram pra ferver a água) mas, enfim, imaginei o que eles estava querendo dizer e preparei todos do mesmo jeito: utilizei em torno de dois gramas de chá para uma xícara de 210 ml, o que dá uma colher de chá bem cheia de folhas, ou duas rasas; coloquei água quente, em uma temperatura de aproximadamente 80ºC, e deixei por dois minutos (água boa para chá verde é entre 80ºC e 85°C, geralmente; é só desligar quando começar a querer se formar borbulhas grandes no funda da chaleira, ou deixar ferver e aguardar uns dois a três minutos antes de colocar no chá). Nestes chás o tempo e a temperatura são importantes, pois amargam fácil, é bom se ligar se não quiser ficar com uma infusão ruim na sua xícara. O resultado temos a seguir:



- Guenmaicha - é o tradicional chá japonês com arroz torrado (foto mais abaixo). Uma diferença deste chá Yamamotoyama é que os outros guenmaichas que eu conheço vêm com os grãos de arroz no estilo "flocos", alguns até com os flocos estourados como pipocas (veja aqui um exemplo), e este aqui vem com o que parece mesmo arroz cru torrado. É bom, suave, com o característico sabor tostado do arroz, e o chá sem ser amargo, dando uma infusão verde claro - neste caso, é uma mistura muito acertada de sencha com bancha, resultando numa bebida leve mas marcante. Guenmaicha acho uma boa opção para acompanhar uma refeição ou pra dar aquela esquentada num dia frio. Diz no site deles que contém matcha também (o que explica o pozinho verde que cobre as folhas e a cor mais viva da infusão), não sei por que não está escrito isso grande na embalagem, pois é algo que chama a atenção do público, mas para o sabor não faz muita diferença (já havia provado um guenmaicha do Japão mesmo com matcha, e o sabor é parecido demais com o sem matcha).

Nota do Chato dos Chás: 4 de 5 (sabor marcante e leve, sem amargar)

- Bancha torrado - Segundo eles, "é o bancha passado pela máquina de torrefação depois de pronto". Gosto bastante, tem um sabor marcante, que parece alguns oolongs mais oxidados que já provei (especialmente o Butterfly), não é pesado e, diz a marca, tem pouca cafeína. A cor da infusão é um marrom claro bem transparente. As folhas são amarronzadas também, com aroma forte de tosta. Ele amarga com facilidade, então se deixar um pouco além do tempo já fica com uma bebida menos agradável (se ficar um pozinho no fundo depois de coado, pode crer que o final da xícara estará com amargor).

Quero aqui fazer uma observação: na embalagem deste Bancha, ele tem a identificação "chá verde torrado", o que leva pessoas a crerem que banchá é chá verde torrado, mas não é; banchá é um tipo de chá verde, como já falei num post aqui. Neste caso, ele é torrado, e a mesma marca tem um outro banchá que não é torrado. Mais claro seria que a identificação na caixa fosse mesmo Bancha Torrado.

Nota do Chato dos Chás: 3,5 de 5 (porque amarga fácil, acaba ficando uma bebiba menos boa no final da xícara, onde está o pozinho  que passou do coador)

Atualização: fui alertado nos comentários sobre o fato de as embalagens trazerem os nomes dos chás em japonês, e a do banchá dizer "houjicha", que é exatamente um chá verde torrado (geralmente bancha mesmo).

- Orgânico - É o que eu mais tomei, porque gosto da proposta deles de fazer um chá orgânico e queria alguma possibilidade de gostar dele porque estava difícil. Segundo a marca, o chá está "na sua forma natural, sem efetuar processos como seleção e processos industriais", daí não acho que vale a pena, já que o que dá o sabor e a característica de cada chá é o modo como é selecionado e processado (além do modo como foi cultivado), se você só vai colher e vender, é como tomar o chá que sua vizinha hippie plantou na hortinha da sacada e não vai ficar legal - pode ser até uma proposta linda, mas não é assim que funciona um bom chá (e estou falando de chá de Cammelia Sinensis, não de infusão de ervas, que daí pode sim funcionar o "colher e ferver"). Pois não ficou legal mesmo. É o chá com menos sabor e menos profundidade sensorial: ou você faz e ele fica quase sem gosto ou ele fica amargo demais (demais!). Se deixar um pouco mais que dois minutos, ou se colocar água muito quente ou se ficar um pozinho no fundo depois de coado (sempre fica), pode crer que a bebida vai ficar muito amarga e desagradável. Aqui eu lembro: chá verde não tem que ser amargo e desagradável!

Nota do Chato dos Chás: 1 de 5 (porque não adianta ter uma proposta boa - e não digo que ser não-selecionado e não processado é bom, mas sim ser orgânico -, tem que ser um bom chá)



Eles produzem alguns chás de provável maior qualidade, como o sencha e o sincha, estes ainda não provei. Já havia tomado muito antigamente o chá verde mais comum deles, que vendem em pacotes de plástico em vários lugares, e ele era bem bom na época que tomei (falei um pouco dele em um post sobre amostras).

Para saber onde comprar chás Yamamotoyama, visite o site deles, lá tem uma página para indicar locais de venda (em Porto Alegre, o verde simples do saco plástico se acha com alguma facilidade no Mercado Público).

Site da marca: http://www.yamamotoyama.com.br


6 de junho de 2016

Provando o Obaatian - o Chá da Vovó

Se houve uma surpresa pra mim nos últimos meses no mundo dos chás, foi a descoberta do Obaatian, o Chá da Vovó. Já conhecia ele em um blend da Infusorina (já resenhado aqui no blog), mas não tinha tomado puro. A produção de chá de qualidade no Brasil é bastante escassa e raros são os que se destacam como chás realmente bons de saborear. Este é um deles. (Já falei aqui sobre o chá preto Amaya também e quero falar futuramente sobre os Yamamotoyama).


Dona Ume Shimada no chazal | Foto de Luci Judice Yizima/Jornal Nippak


O chá é produzido pela dona Ume Shimada e sua família, em Registro, interior de São Paulo. "80 anos nas costas da vovó Shimada não foram suficientes para abalar o ânimo dessa senhora. Arregaçou as mangas para recuperar a plantação de chá em seu terreno, e com a ajuda de sua filha, Teresinha, levantou uma pequena fábrica de chá artesanal. Com carinho e dedicação, o Sítio Shimada hoje produz seu próprio chá preto puro de qualidade, na tradicional região do Vale do Ribeira." Assim nos é apresentado o chá no site da empresa, uma belezinha.

Leia abaixo trecho da matéria do Jornal Nippak, que tem boas fotos também: "De acordo com a dona Ume, por dia são colhidos 20 quilos de brotos de chá, toda a produção do chá é feita manualmente por ela. Os chás são feitos de brotos e folhas recém-emergidas, colhidas manualmente a cada duas ou três semanas de setembro a maio. Em três meses tem nova safra. Após a colheita, as folhas são espalhadas em grandes bandejas e deixadas para secar por períodos de tempo variados."

Quanto ao chá, é um preto artesanal lindo, de folhas grandes levemente torcidas, cheiroso, com sabor extenso, complexo, lembrando os bons chás chineses de que já falei muito aqui no blog. Suave e marcante, fica pronto em um minuto apenas - instrução muito acertada da embalagem; na embalagem, aliás, temos a data de colheita do chá que estamos tomando, o que é uma informação importante pra quem gosta de saber.




Tenho grande apreço a este chá e dou minha total recomendação. Se tivesse que escolher alguns chás pra levar pra uma ilha deserta, este seria um deles (não sei como eu ia preparar chá em uma ilha deserta, mas, né, é só imaginação).

No site da marca saiba onde encontrá-lo: www.obaatian.com.br

Online você pode comprá-lo com a Infusorina: www.infusorina.com.br

A Yuri, do blog Chá, Arte e Vida, visitou a fazenda e fez um post mostrando o processamento artesanal do chá: chaarteevida.blogspot.com.br/2015/11/visitando-as-fazendas-de-cha-no-brasil.html


24 de setembro de 2015

Provando chás da Infusorina

Coisa boa é que o mundo dos chás está se expandindo no Brasil. Temos novas casas, novos produtos, novas marcas e muito conhecimento sendo compartilhado. Uma dessas novas marcas é a Infusorina (www.infusorina.com.br), comandada pela sommelière Renata Acácia há cerca de um ano. Ela tem instigantes blends próprios; dois desses blends eu provei e falo agora deles:


Bem-me-quer - Minha inicial admiração aqui vai para o ótimo chá preto nacional que compõe a base do blend: é o Shimada, produzido na cidade de Registro, em São Paulo. É um chá macio, redondo, com bom corpo, muito gostoso de tomar. Junta-se a ele rosa mosqueta, amaranto e hibisco. Tive um pouco de dificuldade inicial de sentir o sabor dos outros ingredientes, só consegui quando fiz com água em temperatura mais alta do que a recomendada (recomenda 80°C, fiz com 90°C), daí principalmente a rosa aparece no paladar, o que deixa ele ainda melhor - mas isso também vai depender da quantidade de pétalas que você pegar pra fazer a infusão.




Amaranto - Aqui temos um chá verde como base, juntando jasmim, amaranto, lavanda e maçã. Geralmente tenho algumas ressalvas a chá verde com jasmim, mas este compõe muito bem com os outros ingredientes, especialmente a lavanda, que dá uma profundidade super interessante ao sabor, além de um aroma convidativo. É bacana poder tirar o chá do pacote e olhar para ele, para ver todos as flores e outros elementos envolvidos no blend.

Só senti falta nas embalagens da descrição de todos os ingredientes dos blends. No Bem-me-quer falta dizer que tem hibisco, e no Amaranto falta dizer que tem maçã. A propósito, as embalagens são muito bonitas:


Fiz algumas perguntas à Renata para escrever o post e acho que as duas últimas respostas dela são importantes estarem aqui por inteiro:

Qual está sendo o maior desafio de trabalhar com chá no Brasil?
Materia prima necessária. Sinto muita dificuldade de encontrar flores, especiarias, chás de folha inteira (naturalmente, afinal, não são produzidos aqui). Ainda mais nesse momento em que o dolar não ajuda. Mesmo que eu use toda a experiencia e, por que não, contatos no comércio internacional, a dificuldade a nível Brasil é ainda muito grande.
Imaginei que a falta de "cultura" do chá fosse um empecilho, mas percebo a cada dia que as pessoas estão muito abertas ao novo e ao que faz bem.

E qual a maior satisfação de trabalhar com chá no Brasil?
Eu tenho alguns amores e, o Brasil é um deles. Morei em quatro estados e sou completamente apaixonada por pessoas. Gosto dessa troca de informações e compartilhamento e me sinto muito realizada em estar com a Infusorina em um momento diferente do nosso país, momento da geração de valor, de mudanças políticas, de mudanças de valores e de negócios. O chá tem sido um boom e participar disso ativamente é gratificante, receber mensagens, ligações e depoimentos passam muita força e determinação. Então, consigo resumir que: desenvolver juntamente a todos que apreciam a cultura do chá, e difundir a mesma aqui, no nosso país é gratificante por si só. 

Os chás são vendidos pelo site, onde também é possível comprar os chás brasileiros Amaya (que já foram tema de um post, com seu chá preto) e o Shimada: www.infusorina.com.br


17 de agosto de 2015

O que é matcha

A nova moda das empresas de dieta parece ser o matcha. Tem em tudo que é lugar algum produto com este nome. E de tudo que é jeito absurdo - porque, você sabe, nem tudo que se diz que é algo é aquilo mesmo, especialmente neste ramo de alimentação (lembrem-se, por exemplo, que recentemente, seguindo a moda detox, muitos produtos chegaram às prateleiras com este nome "detox", prometendo "desintoxicar" as pessoas, e a Anvisa mandou suspender sua divulgação "milagrosa").


Bom, ok, ninguém liga muito para o que é matcha, bancha, chá vermelho etc,  mas eu ligo. Vamos lá dar uma aprendida no assunto então.

Matcha simplesmente é um tipo específico de chá verde, em pó, produzido de modo tradicional japonês, originalmente usado para a cerimônia do chá nipônica. Estas as palavras chaves: "chá verde específico", "japonês" e "em pó". Fora desse padrão, não é matcha. Pode ser em pó, mas se não for o tipo certo, feito segundo os preceitos japoneses, não é matcha. Pode ser parecido, pode estar imitando, pode querer confundir, mas não é matcha. É que eu gosto das coisas bem entendidas.

Este produto da foto abaixo, por exemplo, não é matcha, é uma mistureba de um monte de negócios. Mesmo os produtos que não são essa mistureba, que consistem em apenas chá verde em pó, se estão nas prateleiras de supermercados ou lojas de coisas naturais anunciando emagrecimento, provavelmente não são matcha também. Tudo bem serem só chá verde em pó. Tudo ótimo com tomar chá verde em pó, mas colocar na coisa o nome de algo que não é, não me parece honesto, apenas marketing pra vender mais com promessas suspeitas (e lojas de coisas naturais estão cheias dessas coisas, vide os detox da vida, os pré-treinos super-power que são só cafeína, os seca-barriga, os cafés verdes, os óleos de sei-lá-o-quê - conheço todos de vista, estou sempre nessas lojas).


Você pode vender um queijo mussarela dizendo que é parmesão? Pra quem não sabe a diferença, pode. Pode vender um whisky de Piracicaba dizendo que é um scotch 12 anos? Pra quem não sabe a diferença, pode. É isso que acontece, basicamente.

E quais são as especificidades do matcha, então? Bom, o matcha vem, é claro, da cammelia sinensis, a planta do chá. Ele é cultivado como um gyokuro (o mais requintado dos chás japoneses), ou seja, nos últimos 20 ou 30 dias antes da colheita a lavoura toda é coberta para que as plantas não peguem mais sol. Isso faz com que diminua o nível de taninos nas folhas (responsáveis por amargor), e aumente o aminoácido teanina, assim dando um sabor forte e marcante mas suave e doce ao matcha, e sua cor fica mais viva e profunda.

Depois ele passa por etapas de processamento específicas das folhas, até que elas sejam moídas em um pó muito, muito fino, utilizando-se moedores de pedra - os de baixa qualidade são moídos em máquinas mesmo, como pode-se ver no vídeo ao final do post.

Propriedades benéficas, ele tem? Sim, as propriedades do matcha são potencializadas por ele ser tomado diretamente, ou seja, ingerimos as folhas mesmo (o pó), e não a infusão das folhas, como nos outros tipos de chás. Assim sendo, polifenóis estão em profusão (que são anti-oxidantes e fazem um bem danado), principalmente um lá chamado EGCG, assim como cafeína. Ele emagrece? Bom, cafeína é conhecida por acelerar o metabolismo; enquanto isso a teanina é cheia de propriedades benéficas e nutrientes. Isso faz emagrecer sozinho? Realmente, não, mas pode ajudar dentro de um contexto,como tudo na vida.


Fiz um teste estes dias, com um matcha de verdade, que nem era de alto nível, e um desses matchas falsos que são qualquer-coisa-que-não-sabemos-o-que-é, comprado numa "loja natural". A foto acima mostra o resultado: o matcha real fica espumoso e bonito, a espuma dura vários minutos e o aroma é fantástico - o sabor também, para mim, mas isso vai do que cada um acha: não tem nada de amargo, mas tem um gosto bem verde, com notas de espinafre e algo umami. Já o "falso matcha" fez pouca espuma, que logo desapareceu, e tinha um gosto de um nada amargo, realmente.

É bom aqui salientar que as propriedades benéficas do matcha só estão reportadas porque em estudos são considerados os matchas verdadeiros. Se alguém pega aqueles chás verdes horrorosos que se vendem por aí nas lojinhas (já viram quanta porcaria tem por aí com o nome de "chá verde"?), mói e vende como matcha, nem rezando dá o mesmo resultado.

Então, lembrando: matcha é sim um chá verde em pó, mas é um chá verde muito específico, cultivado de forma específica e processado dentro dessas especificidades. Não é porque moemos qualquer chá que ele se torna matcha, assim como não é qualquer vinho espumante que é champanhe (só pode usar este nome os espumantes da região de Champanhe, na França, você sabe). Se você está assim preocupad@ com sua saúde e/ou dieta, faça direitinho. Se quiser comprar matcha, compre do bom; se quiser comprar chá verde, compre das marcas decentes, nada daquele monte de capim seco cheio de galhos.

Aqui um vídeo mostrando rapidamente o processo de se plantar e processar matcha (eles só não mostram as lavouras cobertas, apenas as lonas amarradas sobre os canteiros esperando a época certa para serem abertas):


Em breve (provavelmente nem tão breve) farei um vídeo mostrando como se prepara o matcha. Ele tradicionalmente é usado para a cerimônia do chá japonesa, que envolve todo um ritual meditativo, mas para tomar em casa normalmente bem de boas também há que se saber como preparar.

Atualização
Onde comprar?
Atendendo a pedidos, segue onde há matcha verdadeiro para comprar no Brasil, que eu saiba:
Talchá - online e nas lojas
Moncloa - nas lojas
Perceba que o preço em "tea boutiques" é bem alto.

Também se encontra em São Paulo, em alguns mercadinhos da Liberdade (cuidado, compre de marcas japoneses, pois marcas brasileiras não fazem o verdadeiro).

O meu eu comprei no Ebay. Você vai ver que os valores são bem mais em conta. Aqui também é preciso cuidado, pois há muita coisa de baixa qualidade - mas geralmente dá pra comprar tranquilo, só que chega dois meses depois.

27 de julho de 2015

Introdução ao chá japonês

Pois se há todo um mundo dos chás, há um pequeno mundo dentro desse mundo maior reservado aos chás japoneses. São chás bastante específicos e diferentes dos chás chineses (que são os mais conhecidos e difundidos) e indianos (conhecidos pelos chás pretos). O chá verde é a qualidade principal, quando alguém lá menciona chá (ocha), é a um chá verde que está se referindo. Além dos próprios chás, os utensílios e a cerimônia tradicional de preparo difere dos outros países. Já falei sobre banchá aqui no blog, e quero escrever sobre matcha e os outros, mas antes farei uma introdução ao tema, retirada do livro Tea Sommelier:

"Chá em todas as suas formas é tão difundido na sociedade japonesa que faz parte de quase toda rotina diária: é servido com refeições em restaurantes (bancha, houjicha), é preparado entre amigos ou em reuniões mais refinadas (sencha, gyokuro), e, é claro, sintetiza a filosofia zen durante a cerimônia do chá (matcha).

No Japão, o chá é colhido de duas a quatro vezes por ano. A colheita na primavera é sem dúvida a melhor e a mais solicitada. O chá verde japonês é tradicionalmente cultivado na província de Shizuoka, lar do melhor Sencha, na província de Kyoto, famosa pelo matcha e pelo gyokuro, e nas províncias de Kagoshima e Kyushu, no sul do país. 

O chá verde lá geralmente retém sua cor viva através de um método de vaporização em alta temperatura desenvolvido em Kyoto em 1738. Durante essa fase muito curta do processamento a temperatura alta bloqueia as enzimas das folhas responsáveis pela oxidação, permitindo ao chá preservar sua cor original."



Foto de Fabio Petroni, no livro Tea Sommelier



16 de junho de 2015

Tomando chá em Nova Iorque - Parte 2

Segundo e último post sobre as casas de chá que visitei em Nova Iorque. Agora temos as duas melhores experiências (para ler o primeiro post, clique aqui).

Argo Tea - loja localizada no térreo do Flatiron Building, um dos cartões postais de NY. Muito bonitinha, colorida, com amostras grátis de chás gelados logo na entrada. Opções de drinks de chá com misturas e leite ou só chá infuso. Não tinham menu, você tem que escolher o chá na parede de chás (ou uma das opções de misturas sugeridas na tabela de preços sobre o caixa, tipo MacDonalds) e o que quiser comer direto no balcão - nada muito incrível, alguns bolinhos, cookies, sanduíches prontos e coisas do tipo. Os chás são preparados numa espécie de máquina expressa. Em 2 minutos a menina fez chá pra três clientes. Ia até reclamar porque achei que ela tinha feito com leite, mas não, era só espuma do chá mesmo quase saindo do copo (e ficou bom!). Há sofás, uma mesa coletiva grande e algumas individuais. Servem em copo descartável como as casas do post anterior, mas é um ambiente bem tranquilo pra ficar com seu copo. Ponto negativo: o banheiro é fechado com senha, mas a senha não vem no recibo de compra (como acontece no Shake Shack, por exemplo), você tem que pedir pra uma atendente atrás do balcão enquanto ela atende outras pessoas (treine seu ouvido para números, isto é de real importância em toda a viagem - você acha que é fácil mas quando alguém atrás de uma máquina de chá te diz ou-naine-ou-fortifaive você pode ter dificuldades). Os chás em folha pra levar já estão em pacotes e vidros, é só pegar (tem uma balança, talvez dê pra pedir por peso também, não percebi, mas deve ser meio complicado). Tem wifi do local e o do prédio. E a vizinhança é uma belezinha, dá um belo passeio.





Endereço da loja: 949 Broadway New York

Alice's Tea Cup - uma casa de chá que tem por tema Alice no País das Maravilhas (há o Chapeleiro Maluco no livro, você sabe, que serve chá). É dividida em duas: na parte da frente você pode pedir chá to go (pra levar, em copo descartável), comprar em folhas ou pegar um dos scones ou muffins. Se quiser sentar é preciso pedir uma mesa. Quando fui estava cheio, precisei esperar uns 10 minutos por ali. Lá dentro é meio escuro, rústico, móveis díspares, utensílios que não combinam, bem descolado. Há um menu com os chás e outro para comidinhas e refeições. Pedi um bule de chá com dois scones. O bule é considerável, dava umas 5 xícaras. O chá era ótimo, pedi o sabor errado, mas não me arrependi. Os scones também tinham tamanho interessante, dá pra quem está com fome mesmo; eles vêm com geléia e um creme tipo chantilly. Aqui é serviço de restaurante normal: pede pra atendente na mesa, eles trazem, depois no fim pede a conta e faz o procedimento de pagamento (lá nos EUA tem o negócio de dar gorjeta, e é depois que passam o cartão, não entendo, uma complicação, mas funciona). Logo depois de me servirem o chá veio um funcionário e distribuiu nas mesas umas canecas dessas aí da foto, com água (tap water, água da torneira, lá eles tomam normal); achei divertido. Fica pertinho do Central Park, dá pra ir direto do Strawberry Fields (local no parque em homenagem ao John Lennon) pra lá. Apenas um ponto negativo: não tem wifi - apesar de haver uma conexão com o nome da loja, a atendente disse que eles na verdade não tem -, se você for turista essa pode ser a diferença entre conseguir pesquisar seu próximo destino ou se perder andando rumo a midtown e ter que voltar quatro quadras até achar um wifi gratuito. Mas como experiência de lugar, de atendimento e de gastronomia foi a melhor de todas. São queridos, atenciosos e não querem que você saia de lá correndo.




http://alicesteacup.com/
Endereço da loja: 102 West 73rd Street, at Columbus Avenue, New York


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